23 de set de 2010

MIKE TYSON,O SENHOR DOS RINGUES

As vitórias por nocante no primeiro assalto foram praxe nos quatro primeiros anos de Tyson como boxeador


Sei que o blog normalmente se aprofunda mais em certos assuntos como graffiti, arte urbana, moda e skate, mas hoje, dando uma lida nos arquivos da RS online, me deparei com uma entrevista um tanto curiosa.

Em 1989, Mike Tyson, de dente de ouro na boca, ainda era um lutador invencível, recém saido da perigosa Brownsville, e tido, segundo própria análise, como o homem mais forte e poderoso do mundo.

Vale a pena conferir como era a vida desse estudioso de boxe, sua infância tumultuada e sua relação com rappers, mulheres e o "pai" Don King. Um vida que muitos boxeadores americanos já provaram! Do caralho!

Segue a reportagem:

O aniversariante está sentado na poltrona da janela no avião, que acabou de decolar da Filadélfia. Ao lado dele está sua namorada, Tabitha Shuron, levemente parecida com a infame Robin Givens, com quem foi casado por pouco tempo. A poltrona ao lado de Tabitha está vazia. Mike Tyson diz para ela sair e me pede para sentar a seu lado. Ele não dirige uma palavra à namorada durante o resto da viagem.

No avião também estão alguns amigos e membros da "Família Tyson", liderada pelo promotor de lutas Don King. Estamos a caminho de uma festa imensa em Cleveland para celebrar o 23º aniversário de Tyson. Ele tirou alguns dias de folga do treino para a luta com Carl "The Truth" Williams, daqui a três semanas.

"Li seu livro", me diz Tyson [Dear Muffo: 35 Years in the Fast Lane, de 1982, sobre os bastidores do mundo do boxe]. "Você realmente conheceu todos aqueles boxeadores? Fantástico... você conheceu o Jack Dempsey?" Confirmo que sim. "Gene Tunney?" Confirmo de novo. "E o Henry Armstrong? Foi um dos meus heróis de todos os tempos. Que tipo de pessoa ele era?"

"Você sabe que ele foi um ótimo lutador", digo. "Era um homem bom e gentil e se tornou pastor depois da aposentadoria." "E o Jack Kearns? Era afiado como dizem?" Novamente confirmo e pergunto: "Você vai me entrevistar ou eu vou te entrevistar?"

Tyson sorri e, quando o avião sai de um banco de nuvens, um raio de sol ilumina seus dois dentes de ouro, o ponto focal de seu sorriso. Na luz, eles se parecem com nuggets recém-fritos.

"Você estava tentando passar uma mensagem quando colocou os dentes de ouro?", perguntei. "Achei que eles haviam saído de moda."

"Pode ser", ele diz. "Não pensei nisso na época. Mas, sabe, sou um homem renascentista. Quando era criança, devorava tudo o que estava escrito sobre boxe e, depois de digerir o que lia, decidi que as décadas de 10 e 20 eram as minhas eras. Se existisse uma máquina do tempo... aqueles lutadores eram meu tipo de lutadores. Eles iam para brigar, e não só isso - me apaixonei pelo estilo de vida daquela época, as roupas, a música, a moralidade. Havia honra até entre os ladrões. Não existiam advogados complicando a vida, um aperto de mão podia selar um grande negócio."

"Alguns dos meus heróis daqueles dias tinham dentes de ouro", Tyson continua. "Era a moda em alguns bairros. Fiz os meus aos 17 anos, com o primeiro dinheiro de verdade que ganhei. Era um sinal de afluência. É, provavelmente era para passar uma mensagem. Acho que é de onde vem o ditado 'Coloque seu dinheiro onde sua boca está'."

Se Tyson fosse adotar esse velho ditado, precisaria de uma boca como a de uma barracuda para guardar os US$ 30 milhões que tem. Na última semana em Atlantic City, todos falavam sobre a recém-lançada biografia de Tyson, Fire & Fear, escrita por José Torres. Pergunto se ele a leu. Ele se inclina na poltrona, aperta o cinto de segurança e diz: "Não, ainda não li, não quero ler e nem quero falar sobre isso".

"Deixe eu ler um trecho para você, só para ter uma reação", falo, pegando um recorte de jornal. "O trecho diz que esse cara bateu a cabeça da esposa contra uma parede, quase a matando. Tem alguma ideia de quem se trata?"

Tyson encolhe os ombros. "Não acredite no que escrevem sobre a vida particular de alguém."

Quando digo que o trecho se referia ao ator Laurence Olivier, ele arregala os olhos. "Olivier disse isso em sua autobiografia, descrevendo como esmurrava Vivien Leigh", explico.

"Acho que isso pode acontecer nas melhores famílias", diz Tyson, ironicamente.

Os anúncios do livro de Torres citam Tyson contando que, certa vez, deu em Robin seu melhor soco e que ela quicou nas quatro paredes. Como a descrição parece ridícula, não pergunto a Tyson se é verdadeira, e sim se ele realmente disse isso, porque Torres me afirmou que Tyson o havia confessado em uma entrevista gravada.

Ele não responde a minha pergunta. Depois de uma pausa, diz, desgostoso, "Um soco nela? Qual é... é claro que tivemos nossas brigas e elas eram um pouco voláteis, nada incomum para jovens casados. Ela conseguia bater bem e chutar onde doía mais. O que houve foi que, no calor do momento, eu a empurrei e ela tropeçou no closet. Mas não saio por aí batendo em mulheres, apesar da imagem que estão tentando pintar sobre mim".

Em uma entrevista para a revista TV Guide, a ex-esposa Robin nos mostra a verdade quando discutiu o casamento com Tyson: "A emoção, o perigo... eu amava isso. Ele era excitante. Não consigo descrever. Ele era excitante. Com certos tipos de mulheres, algumas vezes elas querem que o homem com quem estão seja... um homem".

Como Tyson, José Torres havia sido agenciado por Cus D'Amato, que "adotou" Tyson quando ele tinha 12 anos. Mike e José tinham sido amigos e confidentes desde então. Falei com Camille Ewald, que foi amante de D'Amato por mais de 40 anos. Ela ficou lívida com o livro de Torres. Camille fez o papel de mãe de 90 candidatos a lutadores que Cus levava para casa, dava comida, roupas e treinava. Três deles, inclusive Tyson, foram campeões do mundo.

Pergunto a Camille, que tem 83 anos e vai à aula de ginástica quatro vezes por semana, que tipo de criança Mike Tyson era quando Cus o levou para casa pela primeira vez. Ela ri, e há uma longa pausa.

"Ele era difícil", conta. "Tinha apenas 12 anos e acabara de sair daquela selva em Brownsville, mas tinha a experiência de rua de alguém de 20 anos. Aqueles meninos no gueto vivem em um mundo de fantasia, um mundo macho. Sempre estão se gabando de suas conquistas, a maioria era mentira. Mike era ótimo em contar vantagem."

"Havia regras muito rígidas na casa", ela continua, "e Mike aprendeu a ter bons modos rapidamente. Meu único problema era fazer com que limpasse o quarto. É muito inteligente e sensível - às vezes dá medo de tão inteligente que é. Agora, tudo o que ouço quando o livro é mencionado é sobre Mike batendo em mulheres. Não é verdade, e José sabe disso. Eles foram muito amigos durante anos. Eu estava bem no meio daquele casamento", ela diz, falando como uma mãe verdadeira. "Via Robin sempre e pode ter certeza de que, se Mike tivesse batido nela, ela teria me contado ou eu teria visto alguns sinais disso."

Escrevi um texto envolvendo Tyson muito antes de conhecê-lo e, há um ano, uma entrevista foi marcada. Ela nunca aconteceu. No dia combinado, ele bateu sua BMW em uma árvore e esse foi o início de uma série de traumas - sua viagem tumultuada à Rússia com Robin, ser criticado em todos os lugares, a bagunça do divórcio, brigas na rua. Há alguns meses, Don King me contou que Mike queria me ver. "Ele leu seu livro Dear Muffo", disse, "e há muitos heróis dele ali". Agora, Tyson sabia que eu havia me envolvido em várias lutas importantes com Cus D'Amato, que morreu há quatro anos.

Vou para Atlantic City algumas semanas depois de Tyson ter começado a treinar para a luta com Carl Williams. Quando chego, ele está no salão do Trump Plaza Hotel se preparando para malhar. É uma sessão fechada, mas consigo entrar quando ele está colocando faixas nas mãos.

Ele agarra meu braço com a mão livre. "Ei, li o livro", diz. "Fantástico! Você realmente conheceu Damon Runyon? Ele é um dos meus autores favoritos. Precisamos conversar - logo depois do exercício."

Assisto enquanto ele luta dois rounds com três parceiros de treino - está terrível. Perde muitas chances e é golpeado por bobagens. No final do sexto assalto, deixa o ringue e, sem olhar para ninguém, sai correndo do lugar pela porta de trás, ainda com as luvas.

Mais tarde, pergunto se ele está ciente de como estava mal naquela tarde. "Fui um dos primeiros a saber", diz.

"Simplesmente não consegui me interessar. Acho que são esses caras - eles estão ficando chatos." Diz que precisa sair e, quando tento marcar um encontro para o dia seguinte, fala: "Quero que você vá à minha festa de aniversário. Sabe, participei de vários dos melhores discos de rap e meia dúzia dos melhores rappers vão à festa".

Não tenho coragem de lhe dizer que rap é como tortura chinesa na água para mim, mas aceito o convite e agradeço. Só mais tarde descubro que a festa será na sexta-feira, em Cleveland.

A comitiva viaja na tarde de quinta. Vamos de limusine ao Aeroporto Internacional da Filadélfia, onde embarcamos.

Tyson me dá o tratamento completo, carregando minha mala do carro até o portão de embarque. Tyson é um jovem extremamente impaciente e sua atenção dura cerca de 30 segundos se você não o mantém interessado, mas agora ele está encurralado em uma poltrona na janela. Ele fala rapidamente, como se houvesse urgência em transmitir sua mensagem. Enquanto fala, me pergunto como pode ser o mesmo menino com o o impressionante recorde juvenil aos 12 anos que abandonou a escola. Ele soa como um professor de faculdade.

"O que você acha do campeão dos pesos pesados como um modelo para jovens atletas e crianças?", pergunto. "Isso significa alguma coisa para você?"

"Significa muito", diz. "As crianças admiram o campeão dos pesos pesados. É uma tradição, mas nunca vou decair como um Jack Dempsey ou um Joe Louis. Quando você pensa nesses caras, pensa em heróis tão americanos quanto a torta de maçã. Fiz muitas coisas estúpidas, imaturas. Vai desde a forma como fui criado na infância e se acumula em várias coisas negativas."

"O que há de novidade em lutadores com muitas coisas negativas em sua história?"

"Minha situação é totalmente diferente", diz. "É óbvio que sou arrogante. Falo o que sinto, e realmente acredito que, de cinco bilhões de pessoas no mundo, nenhuma pode me derrotar. Acho que as pessoas não gostam de ouvir essas coisas e muitas delas esperam que eu me destrua. Estou ciente disso, mas acho que sou inteligente demais para me autodestruir."

"A maioria das pessoas acha que os pontos negativos se transformam em história quando corrigidos", eu digo.

"Talvez eu seja mais consciente dos meus", diz.

"E quanto a seu relacionamento com Don King?"

"É um bom relacionamento", ele conta, "mas não é só uma relação de negócios. É uma coisa de parceria e tem sido bom para mim. Ele me orientou no período mais precário da minha vida. Quando eu era um moleque nas ruas, fé e religião eram coisas em que nunca pensava. Eu não acreditava em nada. Ele me levou a sua casa, insistiu para que fosse à igreja. Outra coisa importante: parei de beber e não coloco uma gota na boca há quase dez meses."

"Basicamente", Tyson diz, "acho que estava ciente do poder da fé, mas não tinha como expressar isso para mim mesmo. A religião fortaleceu minha fé. Ela pode ser poderosa, mas, além da coisa espiritual, acho que Don é um excelente promotor. O melhor."

"Só que quero deixar isso claro", ele finaliza. "Ninguém me influencia completamente. É a verdade, faço o que sinto. Se você vai estragar algo, que seja por sua decisão, não a de outra pessoa. Se você vai fazer sucesso, que seja por suas próprias decisões. Quando a poeira baixar, espero que o barômetro sobre Mike Tyson diga 'ele fez o que tinha de fazer'."

Durante seu ano turbulento, incidentes explodiam como granadas ao redor de Tyson e especialistas diziam que ele se autodestruiria, mas, desde que King o "adotou", não houve nenhum incidente e Tyson parece ser um jovem mais comedido e feliz.

A comemoração é no International Exposition Center, um edifício cavernoso onde se fabricavam tanques e bombardeiros durante a Segunda Guerra Mundial. Depois de uma série de lutas improvisadas, os espectadores seguem para outra parte, onde a festa está montada. Há bufês com leitão assado, costelas, legumes e outros pratos caseiros. Os rappers - Run DMC, Heavy D. and the Boyz, Jazzy Jeff and the Fresh Prince, Slick Rick - estão animando a festa. Tyson, de short preto, camisa preta e branca e ouro suficiente no pescoço para fazer Sammy Davis Jr. babar, caminha pelo salão, apertando mãos, posando para fotos e assinando autógrafos.

Pergunto a Mike como ele se sente aos 23 anos. "As coisas vão bem e estão cada vez melhores", afirma. "Sei que a vida pode ser uma droga, mas isto aqui é melhor do que ficar fazendo nada em uma esquina no Brooklyn". A festa vai até altas horas, e voltamos para Atlantic City apenas no dia seguinte.

Não vejo Tyson novamente até a semana antes da luta com Carl Williams. Chego tarde na quarta-feira e me dizem que ele não está mais treinando. No dia seguinte, ele se exercita em uma sessão fechada no salão do Trump Plaza. Aaron Snowell e Jay Bright, seus dois treinadores que substituíram Kevin Rooney, o polêmico treinador que Tyson demitiu, gritam sinais para ele enquanto golpeia o grande saco. Eles o fazem trabalhar em combinações e repetir o padrão até ficarem satisfeitos com o que aprendeu. Enquanto tira as luvas, Tyson me chama. "Está de volta, né?", diz calorosamente. "Conta, você conheceu o Harry Wills?"

"Ele era anterior à minha época", digo, "mas era negro e o lutador número um quando Dempsey foi campeão, só que Dempsey sempre o evitava e nunca lutou com ele". Tyson sabe disso.

Pergunto: "E quanto à história de que você está se afastando do método de Cus D'Amato porque não tem mais ninguém à sua volta que sabe como administrar isso desde que você demitiu Rooney?"

Tyson limpa o suor do rosto e expira ruidosamente: "Isso está ficando cada vez mais bobo", diz. "O Jay Bright aqui trabalhou com Cus por 18 anos. Aaron Snowell é uma grande ajuda. Eles coordenam lindamente, estou muito feliz com minha equipe de treino e espero que isso encerre mais um boato falso."

"Vendo você treinar", revelo, "me parece que você vai terminar a próxima luta rapidamente. Um round?"

Ele ri. "Essa é a estratégia. Acabar logo com isso."

Tyson descansa até a noite da luta. Ele a termina em 93 segundos, e a melhor lembrança que resta é a perfeição do gancho esquerdo que nocauteou Williams.

Tyson aprende algo com cada luta. Agora, acho que atingiu cerca de 85% de seu potencial. Não sei o que Williams aprendeu, mas o juiz Randy Neumann adicionou alguns anos à sua vida ao interromper o combate, e Williams deveria ser grato em vez de ficar reclamando.

Tyson agora enfrenta o problema que grandes pesos pesados de outras eras enfrentaram - falta de concorrência formidável. Realmente não há adversário legítimos, exceto Evander Holyfield, um oponente inevitável com quem lutará no ano que vem. Enquanto isso, Razor Ruddock será a próxima vítima de Tyson. O combate acontecerá no início de novembro, no Canadá.

Depois de fazer o checkout no hotel no dia seguinte à luta, encontro Mike na calçada, esperando pelo carro. Vou para Nova York e ele vai para sua casa em Nova Jersey, que colocou à venda por US$ 8 milhões.

Quando vi Tyson lutar pela primeira vez, fiquei impressionado com suas mãos rápidas e a potência bruta dos golpes, e quando o conheci fiquei igualmente impressionado com sua erudição. Depois, comecei a me perguntar se ele havia me conquistado com seus elogios e charme bruto e se eu o estava valorizando demais. Decidi corroborar minhas impressões.

Perguntei a Bill Mazur, comentarista de TV e especialista em esportes, o que ele achava de Tyson fora do ringue. "Tyson é maravilhoso", afirmou. "Não dá para classificá-lo. Eu o considero um dos melhores historiadores de boxe do país."

Dave Anderson, colunista do New York Times, tinha acabado de entrevistar Tyson. "Você diria que ele é um dos lutadores mais brilhantes com quem já falou?", pergunto.

"Não é só isso", responde Dave. "É um dos atletas mais inteligentes com quem já conversei."

Enquanto esperamos pelo carro de Mike, digo a ele: "Vai para casa descansar, é?"

"Descansar? Estou descansando há dois meses. Primeiro vou para casa, depois para o Harlem à noite para o show no Apollo. Tem rappers bons na programação. Talvez eu fale com você bem mais tarde, no Columbus."

"Mike", falo, "há uma coisa que quero perguntar antes de você ir. O que tem a dizer sobre os rumores que acusam você de ser 'antibranco'?"

"Mais besteira?", pergunta. "Como podem ser tão absurdos? Você tem que entender quem sou, de onde venho e como sou visto pela sociedade. Nunca neguei a maioria das coisas de que me acusaram em meus dias de loucura, mas antibranco... isso é ridículo. A pessoa que mais amei no mundo era branca."

Seu carro chega. "Cuide-se", diz ao entrar. Quando o carro começa a andar, ele põe a cabeça para fora da janela e grita: "Você conheceu Mickey Walker?"

Há um grande sorriso dourado em seu rosto. Desta vez, acho que está brincando comigo.


'Tyson
Tyson com Don King, o onipresente tutor: "Não é só uma relação de negócios. É uma coisa de parceria"

COMEÇOU: FESTIVAL DO RIO 2010!


De 23 de setembro a 7 de outubro, a capital carioca recebe mais uma edição do Festival do Rio, um dos mais importantes do Brasil, com títulos de vários gêneros e nacionalidades.

Como já é tradição, a noite de abertura acontece no belo Cine Odeon Petrobrás. A Suprema Felicidade, retorno de Arnaldo Jabor à direção, foi filme o escolhido para a noite.

Cerca de 300 títulos estão divididos em mais de 15 mostras. Sessões especias e debates também fazem parte da programação. As atrizes Charlotte Rampling e Irene Jacob, o ator Michael Madsen, os diretores Bruno Dumont e Amos Gitai já confirmaram presença.

Entre os selecionados estão títulos aguardados como Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos, de Woody Allen; Copie Conforme, de Abbas Kiarostami; A Woman, a Gun and a Noodle Shop, de Zhang Yimou; Route Irish, de Ken Loach; a versão integral de Carlos, de Olivier Assays – exibido somente em Cannes; Minhas Mães e Meu Pai, de Lisa Cholodenko; Tournée, de Mathieu Amalric, e Lope, de Andrucha Waddington, escolhido para encerrar o festival.

Este ano, a Argentina será o país homenageado, com mais de 10 produções. Entre elas estão Las Vidas de los Jueves, de Marcelo Pineyro; Carancho, de Pablo Trapero, e Dos Hermanos, de Daniel Burman. Os diretores Bruno Dumont e Amos Gitai ganham restrospectivas.

Além das tradicionais mostras Panorama, Expectativa, Première Brasil, Première Latina, Midnight, Gay, Fronteiras, Dox e Geração, o FestRio traz, pela segunda vez, a mostra Meio Ambiente, com filmes de tema ecológico e social, e lança O Brasil do Outro, que propões um olhar diferente do nosso país, visto pela ótica estrangeira – nela serão exibidos Rio Sonata, de Georges Gachot; Complexo, do português Mário Patrocínio, e outros.

Confira abaixo alguns dos títulos selecionados:

MOSTRA PANORAMA

- Je suis heureux que ma mère soit vivante, de Claude Miller, Nathan Miller
- À l’origine, de Xavier Giannoli
- A Esperança Está Onde Menos se Espera, de Joaquim Leitão
- O Sequestro de um Herói, de Lucas Belvaux
- A Somewhat Gentle Man, de Hans Petter Moland
- Lebanon, de Samuel Maoz
- Minhas Mães, Meu Pai, de Lisa Cholodenko
- A Woman, a Gun and a Noodle Shop, de Zhang Yimou
- Loose Cannons, de Ferzan Ozpetek
- The Housemaid, de Im Sang-Soo
- Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos, de Woody Allen
- Tournée, de Mathieu Amalric
- I Wish I knew, de Jia Zhang Ke
- Room in Rome, de Julio Medem
- Nostalgie de la Lumière, de Patricio Guzman
- Copie Conforme, de Abbas Kiarostami
- Les amours imaginaires, de Xavier Dolan
- Route Irish, de Ken Loach
- Carlos, de Olivier Assayas
- Atração Perigosa, de Ben Affleck
- The House of Branching Love, de Mika Kaurismäki
- Rio Sex Comedy, de Jonathan Nossiter
- The Solitude of Prime Numbers, de Saverio Constanzo
- Nowhere Boy, de Sam Taylor Wood
- Refúgio, de François Ozon
- Cyrus, de Mark e Jay Duplass

MOSTRA BRASIL DO OUTRO

- Rio Sonata, de Georges Gachot
- Complexo : Universo Paralelo, de Mário Patrocinio
- Estrada, de Aude Chevalier-Beaumel
- Slaves of the Saints, de Kelly E. Hayes
- Tom Zé – Astronauta Libertado, de Ígor Iglesias González

MOSTRA FOCO ARGENTINA

- Rompecabezas, de Natalia Smirnoff
- Andrés No Quiere Dormir la Siesta, de Daniel Bustamante
- Te Extraño, de Fabián Hofman
- Por Tu Culpa, de Anahí Berneri
- La Invéncion de la Carne, de Santiago Loza
- Carancho, de Pablo Trapero
- La Mirada Invisible, de Diego Lerman
- Los Labios, de Santiago Loza e Ivan Fund
- Francia, de Adrian Caetano
- Las Viudas de los Jueves, de Marcelo Piñeyro
- Lo Que Mas Quiero, de Delfina Castagnino
- Cerro Bayo, de Victoria Galardi

MOSTRA MIDNIGHT

- We Live in Public, de Ondi Timoner
- In the Woods, de Angelos Frantzis
- Bibliotheque Pascal, de Szabolcs Hajdu
- Keep Surfing, de Bjorn Richie Lob
- The Silent House, de Gustavo Hernández
- Rubber, de Quentin Dupieux
- Machete, de Robert Rodriguez e Ethan Maniquis
- Cortina de Fumaça, de Rodrigo Mac Niven

MOSTRA DOX

- William Kunstler: Disturbing the Universe, de Sarah Kunstler, Emily Kunstler
- We’ll Get Used to It, de Mohsen Ostad Ali Makhmalbaf
- Budrus, de Julia Bacha
- L’autobiographie de Nicolae Ceausescu, de Andrei Ujica
- Freedom Riders, de Stanley Nelson
- Cultures of Resistance, de Iara Lee

MOSTRA EXPECTATIVA

- Embargo, de Antonio Ferreira
- The Robber, de Benjamin Hei senberg
- Last Train Home, de Lixin Fan
- R U There, de David Verbeek
- Adrienn Pál, de Ágnes Kocsis
- Between Two Worlds, de Vimukthi Jayasundara
- Letters from the Desert, de Michela Occhipinti
- The Crossing, de Selim Demirdelen
- Operation Casablanca, de Laurent NÈGRE
- José & Pilar, de Miguel Gonçalves Mendes
- América, de João Nuno Pinto
- The Good Heart, de Dagur Kári
- Copacabana, de Marc Fitoussi
- A Oeste de Plutão, de Henry Bernadet e Myriam Verreault
- Mama África, de Alê Braga

MOSTRA GAY

- Le Fil, de Mehdi Ben Attia
- BearCity, de Doug Langway
- Amphetamine, de Scud
- Plan B, de Marco Berger

MOSTRA GERAÇÃO

- Era uma vez …. O Reino da Confusão, de Miloslav Smidmajer
- Crocodilos, de Christian Ditter
- Harun Arun, de Vinod Ganatra
- Contos da Selva, de Liliana Romero e Norman Ruiz
- A Substituta, de Ole Bornedal
- Beijos, de Lance Daly
- Pimenta, de Eduardo Mattos
- Retrovisor, de Eliane Coster
- Na Casa ao Lado, de Naiara Rímoli
- Memória de Elefante, de Denise Moraes
- Infância, de Andre Emidio, Diego da Silva Esteves, Ingrid Rocha Paiva; Pamella Magno Braga da Conceição e Samuel de Souza Ridan
- A Garrafa do Diabo, de Fernando Coimbra
- A Língua das Coisas, de Alan Minas

D2 LANÇA TRIBUTO A BEZERRA DA SILVA



Quando se fechava no estúdio para gravar a voz de "Marcelo D2 canta Bezerra da Silva" (EMI), o rapper não pensava em Bezerra. Ele conta que sua identificação com as palavras cantadas pelo sambista é tanta que ele esquecia completamente o intérprete original e abordava as músicas como se fossem suas. Assim, naturalmente, capturou os versos para seu universo e seu tempo, recontextualizando-os. Aí reside a grande novidade do CD - no mais, dos arranjos à interpretação, ele é fidelíssimo ao espírito de Bezerra.

Bezerra costumava se defender das críticas cantando. De certa forma, fiz o mesmo - diz D2. - Falam que eu sou vendido e tal, mas eu fui para a cadeia, falei de maconha na frente da polícia, falo até hoje. "Desabafo" toca em tudo que é rádio e fala de bagulho. Quando canto "Bicho feroz" (versos como "Você com um revólver na mão é um bicho feroz/ Sem ele anda rebolando e até muda de voz" soam como recado direto aos "rappers" da linha "gangsta-enfezada", velhos desafetos de D2) ou "Partideiro sem nó na garganta", estou dando uma resposta a muita gente. "Eu sou eu, partideiro indigesto sem nó na garganta" (canta)... Muitos dizem que são indigestos, mas são aceitos no mundinho do rap. Eu não, todo mundo tem que me engolir.

Pela primeira vez gravando um disco tradicional de samba - sem fusões, sem DJ, sem busca de batida perfeita -, D2 "cutuca a ferida" ("Como Bezerra fazia", ele nota) das diferenças que ele vê entre os dois universos pelos quais circula desde cedo, o samba e o rap:

- Minha mulher reclama que quando vai a uma festa de rap, a olham de cima a baixo, mas no samba puxam cadeira para ela sentar e trazem cerveja. No samba não tem ti-ti-ti, cada um cuida da sua vida. No rap é battle (batalha) o tempo inteiro, B-boy contra B-boy, MC contra MC, "eu sou melhor que você"... Tem um lado bom, a força do rap vem daí, mas tem hora que cansa. Procuro tirar o melhor dos dois mundos, da competitividade do rap e da camaradagem do samba.

Por tudo isso, D2 não teme reações do mundo do samba ao seu mergulho no gênero:

- Já se fez tudo no samba, ele é muito aberto. O rap é bem mais complicado. Se chega um músico de jazz no samba, eles chamam para a roda. No rap, vão achar que o cara chegou para roubar. Queria que o rap tivesse a liberdade do samba. Deixa o menino brincar - diz, citando Jorge Ben Jor. - Mas já foi bem pior. Há dez anos, para falar "rap" você tinha que ter carteirinha do sindicato.

A capa do CD, à primeira vista, traz um tanto do tal caráter "indigesto" do rapper - D2 crucificado em frente à favela, com microfones simulando armas e plugues como balas. Mas ela na verdade suaviza a clássica capa que a inspirou, do disco "Eu não sou santo" - na original, Bezerra portava armas mesmo.

- Não é questão de aliviar. São outros tempos - avalia D2. - Por outro lado, Bezerra falava da maconha em letras cifradas, eu falo abertamente "Eu canto assim porque eu fumo maconha".

"Marcelo D2 canta Bezerra da Silva" abre trazendo uma atmosfera de battle de que o rapper fala. "Se não fosse o samba" e "Partideiro sem nó na garganta" são canções em primeira pessoa, de apresentação, com doses de marra. Depois, em 14 faixas (há uma extra, um texto de D2 para Bezerra), ele dá um panorama da obra do sambista.

- Bezerra tem muita música de malandro, de dedo-duro, de sogra, de favela, de bagulho... Procurei cobrir todos os assuntos. E sem querer fazer trabalho de arqueólogo, buscar músicas desconhecidas. Pô, se o cara compra um CD de Marcelo D2 cantando Bezerra e não tem "Malandragem dá um tempo", ele vai ao Procon - brinca.

A ideia de gravar o CD vem desde a morte de Bezerra, em 2005, mas tomou forma no início de 2010, numa conversa de D2 com Leandro Sapucahy (produtor do disco). Decidiram que seria um álbum de samba, com o jeito do Bezerra (coros femininos, atabaques na frente) e entraram em estúdio. Em dois dias gravaram as bases, em sete registraram a voz do rapper - agora cantor.

- Não fiz preparação nenhuma, foi tranquilo. Canto essas músicas há muito tempo.

Para o show, D2 quer mais que simplesmente levar as músicas ao palco:

- Vi "Fela!" (musical da Broadway sobre Fela Kuti) e viajei nessa ideia de fazer algo grande, apresentando o Bezerra, com coro de dez mulheres dançando e rodando... Mas tem que fumar mais maconha para definir como vai ser.
Fonte: O Globo