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23 de set. de 2010

D2 LANÇA TRIBUTO A BEZERRA DA SILVA



Quando se fechava no estúdio para gravar a voz de "Marcelo D2 canta Bezerra da Silva" (EMI), o rapper não pensava em Bezerra. Ele conta que sua identificação com as palavras cantadas pelo sambista é tanta que ele esquecia completamente o intérprete original e abordava as músicas como se fossem suas. Assim, naturalmente, capturou os versos para seu universo e seu tempo, recontextualizando-os. Aí reside a grande novidade do CD - no mais, dos arranjos à interpretação, ele é fidelíssimo ao espírito de Bezerra.

Bezerra costumava se defender das críticas cantando. De certa forma, fiz o mesmo - diz D2. - Falam que eu sou vendido e tal, mas eu fui para a cadeia, falei de maconha na frente da polícia, falo até hoje. "Desabafo" toca em tudo que é rádio e fala de bagulho. Quando canto "Bicho feroz" (versos como "Você com um revólver na mão é um bicho feroz/ Sem ele anda rebolando e até muda de voz" soam como recado direto aos "rappers" da linha "gangsta-enfezada", velhos desafetos de D2) ou "Partideiro sem nó na garganta", estou dando uma resposta a muita gente. "Eu sou eu, partideiro indigesto sem nó na garganta" (canta)... Muitos dizem que são indigestos, mas são aceitos no mundinho do rap. Eu não, todo mundo tem que me engolir.

Pela primeira vez gravando um disco tradicional de samba - sem fusões, sem DJ, sem busca de batida perfeita -, D2 "cutuca a ferida" ("Como Bezerra fazia", ele nota) das diferenças que ele vê entre os dois universos pelos quais circula desde cedo, o samba e o rap:

- Minha mulher reclama que quando vai a uma festa de rap, a olham de cima a baixo, mas no samba puxam cadeira para ela sentar e trazem cerveja. No samba não tem ti-ti-ti, cada um cuida da sua vida. No rap é battle (batalha) o tempo inteiro, B-boy contra B-boy, MC contra MC, "eu sou melhor que você"... Tem um lado bom, a força do rap vem daí, mas tem hora que cansa. Procuro tirar o melhor dos dois mundos, da competitividade do rap e da camaradagem do samba.

Por tudo isso, D2 não teme reações do mundo do samba ao seu mergulho no gênero:

- Já se fez tudo no samba, ele é muito aberto. O rap é bem mais complicado. Se chega um músico de jazz no samba, eles chamam para a roda. No rap, vão achar que o cara chegou para roubar. Queria que o rap tivesse a liberdade do samba. Deixa o menino brincar - diz, citando Jorge Ben Jor. - Mas já foi bem pior. Há dez anos, para falar "rap" você tinha que ter carteirinha do sindicato.

A capa do CD, à primeira vista, traz um tanto do tal caráter "indigesto" do rapper - D2 crucificado em frente à favela, com microfones simulando armas e plugues como balas. Mas ela na verdade suaviza a clássica capa que a inspirou, do disco "Eu não sou santo" - na original, Bezerra portava armas mesmo.

- Não é questão de aliviar. São outros tempos - avalia D2. - Por outro lado, Bezerra falava da maconha em letras cifradas, eu falo abertamente "Eu canto assim porque eu fumo maconha".

"Marcelo D2 canta Bezerra da Silva" abre trazendo uma atmosfera de battle de que o rapper fala. "Se não fosse o samba" e "Partideiro sem nó na garganta" são canções em primeira pessoa, de apresentação, com doses de marra. Depois, em 14 faixas (há uma extra, um texto de D2 para Bezerra), ele dá um panorama da obra do sambista.

- Bezerra tem muita música de malandro, de dedo-duro, de sogra, de favela, de bagulho... Procurei cobrir todos os assuntos. E sem querer fazer trabalho de arqueólogo, buscar músicas desconhecidas. Pô, se o cara compra um CD de Marcelo D2 cantando Bezerra e não tem "Malandragem dá um tempo", ele vai ao Procon - brinca.

A ideia de gravar o CD vem desde a morte de Bezerra, em 2005, mas tomou forma no início de 2010, numa conversa de D2 com Leandro Sapucahy (produtor do disco). Decidiram que seria um álbum de samba, com o jeito do Bezerra (coros femininos, atabaques na frente) e entraram em estúdio. Em dois dias gravaram as bases, em sete registraram a voz do rapper - agora cantor.

- Não fiz preparação nenhuma, foi tranquilo. Canto essas músicas há muito tempo.

Para o show, D2 quer mais que simplesmente levar as músicas ao palco:

- Vi "Fela!" (musical da Broadway sobre Fela Kuti) e viajei nessa ideia de fazer algo grande, apresentando o Bezerra, com coro de dez mulheres dançando e rodando... Mas tem que fumar mais maconha para definir como vai ser.
Fonte: O Globo

18 de jun. de 2010

BEZERRA DA SILVA, DA MALANDRAGEM A FÉ EVANGÉLICA


José Bezerra da Silva (Recife, 23 de fevereiro de 1927 — Rio de Janeiro, 17 de janeiro de 2005) foi um cantor, compositor e violonista brasileiro, considerado o embaixador dos morros e favelas. Cantou sobre os problemas sociais encontrados dentro das comunidades, se apresentando no limite da marginalidade e da indústria musical.

Os principais temas foram os problemas sociais dentro das comunidades, entre eles: a malandragem e ladrões à margem da lei, a maconha, e outras linguagens. É considerado um dos principais expoentes do samba do estilo partido alto.

Nordestino, desde a infância foi ligado à música e sempre "sentiu" que apresentava o dom de tocar, causando atritos com a família.

O pai, da Marinha Mercante, saiu de casa quando Bezerra era pequeno, vindo morar no Rio de Janeiro. Com isso, depois de ingressar e ser expulso da Marinha Mercante, descobriu o paradeiro do pai e veio atrás dele. Causando mais atritos com o pai, foi morar sozinho, no Morro do Cantagalo, trabalhando como pintor na construção civil. Juntamente, era instrumentista de percussão e logo entrou em um bloco carnavalesco, onde um dos componentes o levou para a Rádio Clube do Brasil, em 1950.

Durante sete anos viveu como mendigo nas ruas de Copacabana, onde tentou suicídio e foi "salvo" por um Santo da Umbanda, onde ele se tornou um praticante até ingressar numa Igreja Evangélica. A partir daí passou a atuar como compositor, instrumentista e cantor, gravando o primeiro compacto em 1969 e o primeiro LP seis anos depois.
Inicialmente gravou músicas sem sucesso. Mas a partir da série Partido Alto Nota 10 começou a encontrar o público. O repertório dos discos passou a ser abastecido por autores anônimos (alguns usando codinomes para preservar a clandestinidade) e Bezerra notabilizou-se por um estilo Sambandido (ou Gangsta Samba), precursor mesmo do Gangsta Rap norte-americano. Antes do Hip Hop brasileiro, ele passou a transmitir do outro lado da trincheira da guerra civil não declarada: "Malandragem Dá um Tempo", "Seqüestraram Minha Sogra", "Defunto Cagüete", "Bicho Feroz", "Overdose de Cocada", "Malandro Não Vacila", "Meu Pirão Primeiro", "Lugar Macabro", "Piranha", "Pai Véio 171", "Candidato Caô Caô".

Em 1995 gravou pela Sony "Moreira da Silva, Bezerra da Silva e Dicró: Os Três Malandros In Concert", uma paródia ao show dos três tenores, Luciano Pavarotti, Plácido Domingo e José Carreras. O sambista virou livro em 1998, com "Bezerra da Silva - Produto do Morro", de Letícia Vianna.

Em 2001 retornou à fé evangélica através da Igreja Universal do Reino de Deus e em 2003 gravou o CD Caminho de Luz com músicas gospel. Em 2005, perto da morte, mas ainda demostrando plena atividade, participou de composições com Planet Hemp, O Rappa, Velhas Virgens e outros nomes de prestígio da Música Popular Brasileira.

Bezerra morreu na manhã de segunda-feira, dia 17 de Janeiro de 2005 aos 77 anos, depois de sofrer uma parada cardíaca. De acordo com o último boletim médico, a causa do óbito foi falência múltipla dos órgãos. O corpo de Bezerra foi velado no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro. O sepultamento foi em uma terça-feira no Cemitério Memorial do Carmo, no Caju.

Bezerra estava internado desde o dia 28 de outubro, no Centro de Terapia Intensiva (CTI) do Hospital dos Servidores do Estado, Rio de Janeiro, com embolia pulmonar e pneumonia.
O curioso desta data é que Bezerra se auto-intitulava "o bom malandro", por isso quando morresse, queria que não fosse numa sexta-feira ou feriado, para não atrapalhar a praia dos amigos. E morreu numa segunda-feira - ou seja, depois do fim-de-semana e no dia 17 de janeiro, o primeiro mês do ano. 1 7 1.

Frases:

"Quando a malandragem é perfeita ela queima o bagulho e sacode poeira."

"Toda hora tem gíria no asfalto e no morro porque ela é a cultura do povo."

"Bom malandro é cadeado. Nada sabe e nada vê."

"Sou um malandro perfeito, tenho sessenta mulheres. Cinqüenta andando a pé, nove me perturbando e uma em casa de fé."

"Conheço muito malandro que é malandro de conversa. Se a mulher não mete os peito, eles passa fome à beça"

"O meu salário é o mínimo, porém é o máximo que eu consigo vencer, desconto pro INPS e o maldito Leão ainda quer me morder."

"E malandro é malandro e mané é mané"

"Se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão"

"Otário só tem dois direitos: tomar tapa e não dizer nada"

"Eu conheço uma pá de otário metido a malandro que anda gingando, crente que tá abafando, e só aprendeu a falar: Como é que é? Como é que tá?"

"Ai gente boa, se num tem intimidade com caneta mete o dedão no papel que tá assinado nosso acordo"

Eu sou cobra criada e tenho muito veneno. Sou neto da madrugada e afilhado do sereno"

"O morro é pobre e a probreza nao é vista com franqueza nos olhos desse pessoal intelectual"

"Em transação de malandro não se põe areia e se tentar atrasar a coisa fica feia"

"Sou produto do morro por isso do morro não fujo e nem corro"

"Com dinheiro tudo bem sem dinheiro tudo mal. O dinheiro nesta vida é peça fundamental"

"Quando Cabral aqui chegou e semeou sua semente, naturalmente começou a lapidação do ambiente"


Discografia :
http://www.kotonette.com/2009/06/discografia-bezerra-da-silva.html







Entrevista para o Casseta (clique para aumentar)